Por que o bodyboard é a origem desconhecida do surf.

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Veem este rapaz, a voar por cima das ondas? Esta é a interpretação moderna do termo “apanhar a onda” e ele fá-lo numa prancha de bodyboard, aquelas pranchas de polietileno que víamos na praia no início de 2000 e que as pessoas diziam: “Não é uma prancha de surfe” Esta afirmação é falsa, porque o bodyboard é a interpretação mais próxima da mais antiga forma de surfe, que remonta aos polinésios indígenas

Bodyboarders como o Hugo Pinheiro, elevam este desporto a fasquias que os surfistas tradicionais nem sonham Conhecemos as origens do futebol, basquetebol e basebol Seguimos esses desportos há décadas, de geração em geração Mas sabemos pouco das origens dos desportos radicais Porquê? Porque só se tornaram famosos nas décadas de 60 e 70, embora as suas origens remontem a eras em que eram formas de vida e experiências comunitárias

Porém, todos moldaram várias culturas de todo o mundo Vou explorar as comunidades por detrás destes desportos e descobrir como afetaram as culturas de hoje Sou o Andy Burgess Faço documentários no YouTube e, juntamente com o Hugo, vou mostrar-vos como o bodyboard é um dos desportos mais desafiantes e porque é tão importante para a cultura do Havai Há 12 ou 13 anos que viajo até ao Havai

O bodyboard mudou completamente a minha vida e a de muitos outros É por isso que foi importante conhecer a origem do meu desporto Eu vou desafiar o Hugo a montar uma prancha havaiana antiga e ele desafiar-me-á a montar uma prancha de bodyboard, na costa norte de Oahu Não faço bodyboard há dez anos Viram aquilo? As ondas são enormes e a costa norte é onde se dão as Pipeline, as ondas mais infames e mortais do mundo

Vamos ver como corre Como me sairia numa Pipeline? Quantos minutos aguentas debaixo de água? Uns trinta segundos Trinta segundos? Estás morto Foi exatamente o que pensei Já sabemos qual vai ser o meu fim

Não vai ser muito animador Mas onde é que tudo começou e porque estamos no Havai? O que pensam quando falamos no Havai? Surfe, decerto Pessoal a apanhar ondas de cinco a dez metros, como se fossem gigantes do oceano, com uma paisagem de sonho por trás É basicamente isso Antes de o surfe se tornar popular, na década de 60, as origens de apanhar ondas estavam mais perto do bodyboard, ou boogie boarding, como Tom Morley lhe chamou, em 1971

O meu conhecimento sobre o bodyboarding era nulo, mas quando vi o que fazias com a tua prancha, fiquei estupefacto e é por isso que estamos aqui Essas pranchas estão ligadas à história antiga do surfe É uma loucura, ver o que o desporto evoluiu até hoje Hoje em dia, o bodyboarding é um desporto radical e extremo Deixem-me explicar-vos porquê muitos desportos radicais terem origem na Polinésia

O Havai é composto por mais de 100 ilhas e estas são as oito principais Embora o Havai pertença aos Estados Unidos, não tem nada a ver com o resto do país Aliás, nunca vi nada assim no mundo Imaginem como é que os polinésios, que viviam aqui em 400 dC, navegavam pelas ilhas Viajavam milhares de quilómetros até à ponta do triângulo polinésio em canoas e depois tinham de atravessar estas paisagens loucas e evitar rochas vulcânicas, falésias gigantescas e florestas vastas

Devia ser uma loucura Navegar tornou-se um meio necessário para dar a volta à ilha, transportando comida, bens e pessoas As ondas e as atividades marinhas fazem parte da nossa cultura, parte da nossa vida Era o nosso parque infantil Toda a gente vivia ao pé do oceano, é parte integrante de nós, das montanhas ao mar

Subiam ao topo da montanha e escolhiam uma árvore para fazerem as pranchas e os papas Quando James Cook foi para o Pacífico Sul e documentou culturas e tradições diferentes, numa das primeiras entradas no diário dele, no Taiti, fala de um taitiano a apanhar ondas de canoa Fez uma observação sobre um indivíduo que apanhava ondas e fazia-o apenas por diversão Esta ligação com o ambiente que te rodeia é outro nível de integração na cultura É difícil de estimar, mas dizem os estudiosos que devia haver cerca de 400 mil havaianos na altura em que James Cook cá chegou, em 1778

Só os das hierarquias mais elevadas conseguiam apanhar ondas Ao longo de várias décadas, a maioria dos 400 mil nativos foram aniquilados e perderam-se muitos elementos da sociedade havaiana Porém, a arte de apanhar ondas não se perdeu por muito tempo e as coisas começaram a mudar em Waikiki, com cada vez mais havaianos a apanhar ondas A prancha Paipo tornou-se popular entre os locais, mas eram mais pequenas que as pranchas Alaia e montavam-se deitadas Andavam de barriga

Isto é uma Paipo É minúscula! É pequenina Quero ver-te andar nisso Vai ser uma loucura É linda

É nativa, era o que os meus antepassados faziam É um outro estilo de surfe, não é como o surfe moderno Fluímos com a água É uma sensação mais pura É feita com madeira local de mangueira e acácia

Isto é acácia nativa Pomos as barbatanas e é como uma prancha de bodyboard, feita de madeira Com a invenção da prancha de bodyboard, praticar wave slide tornou-se mais acessível No Havai, somos tolerantes com todas as formas de apanhar ondas: com canoas, Paipos, Alaias, longboards, shortboards, foil boards, boogie boards No Havai, os bodyboarders são respeitados

Não interessa a prancha que usam, desde que se divirtam, desfrutem do oceano e cuidem dele, é o principal Mesmo sem prancha O bodysurfing é para todos É algo que aprendi muito novo Tens algum conselho, sobre como andar numa das pranchas originais do desporto? São pranchas mais pesadas

As tradicionais comparadas com as modernas, são a noite e o dia Porém, o importante, é senti-la e divertir-se Compreendes? No surfe, o importante é divertirmo-nos Hugo! – Que tal? – Muito fixe Usaste-a como se fosse uma prancha de bodyboard

Sim, mas é completamente diferente Não conseguimos fazer as curvas, como no bodyboard atual, mas é lindo, saber onde tudo começou Quando comecei a praticar, só queria divertir-me, apanhar ondas pequenas Depois, comecei a ler revistas e a conhecer as grandes lendas Vi o Kainoa McGee, a rasgar Pipelines em Drop Knee

Ver isso era uma loucura e comecei a sonhar em vir cá um dia, para ver estes tipos em ação Ontem, o Hugo contou-nos que o Kainoa é a lenda do bodyboard que oficializou o desporto para as pessoas de todo o mundo O nosso produtor, o Zak, conhece o Kainoa e ele está em Oahu Vamos até Oahu para eles se conhecerem e conversarem Será brutal

Tudo bem, meu? – Tudo bem? – Sim e tu? – Também – Prazer Acho-te um dos responsáveis por impulsionar o desporto e fazer dele o que é hoje Obrigado, agradeço imenso É uma paixão

Surfava as Pipe aos 13 ou 14 anos Ninguém o fazia, muito menos em pranchas de bodyboard Na altura, bodyboarding era uma coisa pequena, local, nunca se tinha visto bodyboarding de alto desempenho Uma vez, os surfistas disseram: “Eles sabem o que fazem Têm nadadeiras nas pranchas?” Dissemos que não

E eles disseram: “Que raio, isso é uma loucura” Há sempre uma rivalidade entre nós Andy, acredito que hoje, vais ver as maiores ondas que já viste na vida Caramba O quê? Que loucura Mini Pipeline! Espetacular É a loucura Há que respeitá-las

Sim, muito respeito Ouve-se a quilómetros de distância É isso que está a assustar-me O barulho Eu cresci a fazer skate

É o mais próximo que tenho disto e É perigoso, mas nós é que nos pomos nessa situação Conhecemos os perigos, podemos cair, podemos magoar-nos

Aqui Só tens controlo até determinado ponto Todos os surfistas têm um grande respeito pelo oceano

Visto que as ondas em Pipe eram demasiado grandes para os prós, decidimos descer a costa e encontrar ondas que pudesse apanhar Pomos cera na prancha Os surfistas põem-na no cabelo, para ficarem mais loirinhos Podes pôr no cabelo, para ficares com estilo de surfista Andy, tens aqui a prancha e as barbatanas

Esta é a nossa posição na água Depois, usas um braço de cada vez Quando fizeres isto, não encostes a cabeça – Não te dá estilo – Não? O estilo é importante

– Estou confiante, vamos lá – Certo Depois de uma lição rápida com um profissional, sentia-me muito confiante Andava como quem sabia o que estava a fazer, apanhei umas ondas, estava a correr bem Mas num instante percebei a razão de estes tipos serem profissionais

Foi embaraçoso Foi nesta altura que percebi que devia deixar isto para quem sabe Por falar nisso, tínhamos de falar com o nove vezes campeão mundial, Mike Stewart Nove vezes! Olha para isto, Andy Esta vem de Espanha

São muito leves Quando fizeram estas pranchas, quais eram os desafios deste desporto, que o elevam a um desporto extremo? O refinamento dos materiais aumentou a capacidade de desempenho Se somares isso a uma Papeline Partes dessa onda não eram exploradas, a lip, por exemplo Este veículo veio permitir experimentar outras partes A Pipe é uma onda incrível É a onda mais letal As pranchas de bodyboard são boas para essas ondas, fazemos descidas acentuadas, aproveitamos condições superficiais, nas quais temos de dobrar a prancha para a acomodar

Até aí, ninguém fazia isso nas ondas As ondas que viram não deviam ser tão superficiais, tão críticas nem tão retorcidas como as Pipe e a malta não estava a fazer grandes saltos das lips Ainda hoje, isso é domínio dos bodyboarders Felizmente, estamos com o cinco vezes campeão europeu de bodyboarding Depois de ver o Hugo e os outros atletas a arrasar nas Pipe, compreendo por que razão esta onda é indescritível

Para mim, esta viagem tem sido espetacular Ir às raízes do meu desporto, estar contigo e com todas aquelas lendas Foi muito fixe vir cá, tornar-me teu amigo, é interessante ver-te como bodyboarder profissional e ver o que tens feito ao longo de 17 anos No nosso último dia por cá, o Hugo vai surfar a Pipeline, eu vou subir a montanha para ver toda a costa e vamos acabar a reportagem A erva dá-me pelos ombros

Este sítio é bom Acho que dá para ver Bem-vindos àquele que me parece ser o ponto mais elevado da costa norte A verdadeira origem do surfe Estas praias são surfadas há milhares de anos, por todo o tipo de havaianos e todo o tipo de pranchas

É óbvio que o bodyboard é mais do que um desporto É uma comunidade Toda a gente se conhece, todos se respeitam quando estão na água Apanhar ondas pode ter começado no Havai, mas é transcendente O Hugo, que cresceu a praticar bodyboard em Portugal, tem exatamente a mesma ligação ao oceano que os praticantes de hoje no Havai e os antigos polinésios

Isso é o mais espetacular deste desporto, aproxima toda a gente Não importa se são iniciantes, alguém que apanhou umas ondas, como eu ou um atleta profissional, como o Hugo Quando me perguntarem se quero surfar, não vou supor que se referem a uma prancha normal Pode ser uma Alaia, Paipo ou uma prancha de bodyboard O importante é a ligação ao oceano, independentemente se forem iniciantes ou profissionais

Isto mudou a minha perceção sobre o bodyboard, a perceção que tinha antes disto Hugo, espero que, da próxima vez que te vir, esteja um bocadinho melhor e talvez possamos apanhar umas ondas em Portugal Não as da Nazaré, talvez mais pequenas

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